Ciao Italia! – Parte I

Na segunda semana de agosto eu e o Rafa fomos conhecer a Itália. No nosso roteiro estavam as cidades de Roma, Florença e Veneza. Pegamos o vôo bem cedinho e chegamos à Bela Roma. Depois de recolher nossa bagagem, saímos apressados para tomar o trem em direção à cidade e eis que somos barrados na alfândega. O policial nos lançou um breve olhar e mandou-nos para o canto. “Passaporte”, solicitou. Entregamos nossos documentos e ele, com os passaportes em mãos, pôs-se a autorizar a passagem das outras pessoas, parar uns gatos pingados e nos deixar lá de molho, sob os olhares desconfiados das outras pessoas que saiam sem nenhum impedimento. Depois de muito esperar - segundo o Rafa, a espera fazia parte da técnica de detenção de suspeitos - ele veio para o interrogatório.
PI (Policia Italiana): Brasileiros, ãn... – começou com o purtuguês de Purtugal – Vêm de onde?
Camila: Madrid.
PI: Há quanto tempo estão em Madrid?
Rafa: 4 meses. Estamos estudando.
PI: Estudando?!
Rafa: É. Veja o visto.
PI: E o que vieram fazer na Itália?
Camila: Passear - respondo.
PI: Têm reservas de Hotel? Posso ver?
Rafa: Sim. E mostra nossas reservas.
Depois de outra pausa para averiguar outras pessoas, ele retorna.
PI: São casados? E faz gesto buscando alianças nos dedos...
Camila e Rafa: Sim, somos. E mostramos nossas alianças.
PI: Quando casaram?
Camila: 5 de julho de 2003.
PI: Bom, abram as malas.
E lá vamos nós abrir nossa malinha sob olhares ainda mais desconfiados daqueles que passam...
PI: Tudo bem. Podem ir.
Finalmente somos liberados. Nossa senhora, que coisa mais chata. Mas, segundo o Rafa, tem que ser assim. Nesse mundo maluco, todos somos suspeitos! Fizemos check-in no hotel e corremos para o Vaticano. Tínhamos feito o roteiro de atividades diárias e a parada na alfândega tinha atrasado um pouco o esquema.
A fila do museu era imensa, mas até que caminhou rápido (apenas 15 minutinhos). Turistas, peregrinos, religiosos, tudo mundo ansioso por entrar. O museu do Vaticano é enorme (no mínimo umas 6h de visitação) e, por isso, nossa visita se limitava à Capela Sistina. Depois de muito andar pelos corredores do museu, chegamos ao mítico local. Lá estava a obra prima de Michelangelo, abarrotada de turistas! É de dar torcicolo: todos olhando para cima, a admirar uma das pinturas mais conhecidas e reproduzidas do mundo. A criação, que fica bem no meio, é, talvez, a mais hipnótica. Pode ser contemplada sob diversos ângulos, cada um escolhe o mais confortável. Somos despertados do transe pelos berros dos guardas: No photo!!! Nessas horas você não sabe quem é pior, o turista inconveniente que quer tirar uma foto, que no final vai ficar péssima e ele vai ter que comprar o postal, ou o guarda escandaloso. Ah, os dois são péssimos!

De lá fomos para a Basílica de São Pedro. As colunas que circundam a praça são impressionantes! Fomos logo para a fila. Estava um calor desumano... ao nos aproximarmos da entrada, vimos que algumas pessoas eram barradas. Todas tinham em comum blusas sem manga ou bermudas! Nesse momento, o Rafa já me lança um olhar de, “Você vai ser barrada!” Não deu outra. O segurança só fez assim com dedo, mandando-me para o banco de reservas. Ah, não... barrada de novo!!! No mesmo dia!!! Tive vontade de chorar! (Mistura de TPM, calor, medo de avião, segunda rejeição). A solução foi comprar um camiseta souvenir e usá-la para cobrir colo e braços. Voltamos os dois para a fila, láááá no começo. Porém, ao entrar na Basílica, a visão da Pietá, fez com que tudo antes parecesse pequeno, coisa sem importância. Nessa hora experimentei o tal sublime de Kant*. Primorosamente teorizado, mas só entendido em sua inteireza quando experimentado a partir dos cinco sentidos. E era só o começo!
*“Denominamos sublime o que é absolutamente grande (...) acima de toda a comparação” (KANT, Immanuel. “Crítica da Faculdade de Juízo Estética”. In: Crítica da Faculdade do Juízo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. p. 45–200.).
Foto1: Fila para o museu Vaticano.
Foto 2: Rafa e eu(toda serelepe com minha blusinha inapropriada!) na Praça de São Pedro.
A Bela Adormecida
Durante o mês de agosto Madrid pára! Os moradores deixam a cidade em direção ao litoral para aproveitar as tão esperadas férias de verão. Lojas, restaurantes, padarias, inúmeros locais fecham as portas e declaram férias coletivas. Se não fecham, adotam o horário de verão: abrem das 10h às 14h e das 17h às 21h! Domingo, nem pensar!
A cidade, então, passa a ser habitada pelos turistas e por aqueles que, infelizmente, não puderam escapar. Ficamos atrapados, envolvidos em uma atmosfera de repouso, como se hibernássemos em pelo verão. A cidade aguarda chegada do outono, quando tudo volta ao normal. Até as linhas do metrô, que agora estão fechadas para reforma (“Disculpen las molestias” para todo canto), reabrem em setembro para dar vazão a movida madrileña que calentará a cidade nos dias frios que estão por vir. Esperemos!
Foto: Cartaz sobre as reformas e ampliações no metrô: "Cuanto más te muevas, más historias tendrás." ¡Así es!
Futebol nosso de cada dia!

Vocês sabem o quanto o Rafa gosta de um futebol. A paixão dele não se limita a só assistir aos campeonatos pela televisão não, ele tem que JOGAR!!! Bom, pois ele tanto fez que conseguiu arrumar uma peladinha aqui em Madrid, lá no Parque del Retiro (o lugar que ele mais gosta na cidade!). Bem no meio do parque há uma academia super legal com salas de musculação e quadras para futebol, squash e tênis.
No mês de julho, passando por lá, o Rafa viu uma turma de arquitetos que precisava de alguém para completar o time. Bom, nem precisa dizer que o ele se ofereceu para ajudar :-)! Porém, a sua atuação foi tão boa que acabou lhe rendendo uma convocação para os próximos jogos. Eles seriam toda quinta-feira, às 14h30. Daí, já se vê a fome de bola do menino! PelamordiDeus! Com o calor que faz no verão, aproveitar a siesta para jogar bola, sob o risco de sofrer um golpe de calor, não dá! Mas não adianta argumentar. Lá foi ele jugar a la pelota!
Teve um dia em que o jogo foi à tardinha e aí resolvi ir para incentivar. Não sei se vocês já viram o Rafa jogar bola, mas é que quando ele joga, joga pra valer! Como se fosse a final do campeonato brasileiro. Soma-se a isso o fato de que, não sei por qual razão, quando ele está jogando, não consegue articular bem as palavras. Então, imagine só ele dando ordens ao time inteiro, mas sem pronunciar uma só palavra que fosse reconhecível!
Neste dia ele estava super inspirado e, como sempre, marcou um monte de gols. Ele jogou tão direitinho que no final da partida um dos seus companheiros teve que lhe dizer pra maneirar, porque, senão, não dava chance aos outros...
Agora, em agosto, está todo mundo de férias e o futebol foi cancelado. A nova temporada só recomeça em setembro e aí será quando nosso craque fará vários jogos amistosos para se despedir dos gramados madrileños.
Foto: Rafa y sus compañeros de fútbol
Euskadi*

No último fim de semana de julho, eu, Rafa e Nina visitamos o País Vasco (sim, com V mesmo). Lá se fala o castellano e o euskera. Este último, diferentemente do resto dos idiomas ibéricos, não tem origem latina e é considerado um das línguas mais antigas da Europa.
Fomos a duas cidades: a primeira foi Bilbao, capital da província de Vizcaya, centro industrial da Espanha. A outra, a cidade litorânea de San Sebastián, que fica na província de Guipúzcoa, já na fronteira com a França. Fomos de ônibus (5h de Madrid a Bilbao), numa viagem super tranqüila (boas estradas). Ao nos aproximarmos do norte da Espanha, a paisagem já começava a ficar bem mais verde e o calor mais brando, com lindas plantações de girassóis na beira da estrada.
Chegamos em Bilbao, deixamos as coisas no hotel e fomos conhecer a cidade. Nosso destino principal era o museu Guggenheim. O prédio impressiona tanto quanto (ou mais que) as obras de arte que abriga: intrigantes exemplares de arte moderna e contemporânea. Na data de nossa visita, havia uma exposição temporária sobre a arte russa. As obras expostas procediam de museus importantes da Rússia como o Museu Estatal de Arte Russa, a Galeria Estatal Tretiakov, e o Museu do Kremlin. As obras do período conhecido por Realismo Socialista, doutrina oficial de arte estabelecida em 1934, são impressionantes.
No dia seguinte, zarpamos para San Sebastián, balneário mais famoso da Espanha. O tempo estava uma maravilha! Passeamos pela parte velha da cidade, com suas ruazinhas cheias de restaurantes e bares de pintxos (em castelhano, tapas). Mas o que a gente queria mesmo era cair no mar. Ficamos na Playa de la Concha, limpíssima e cheia de jovencitas e señoras de topless. Elas não apenas se contentavam em ficar estiradas tomando sol, como também saiam para caminhar pela praia (para a alegria do Rafa hahaha).
O País Vasco é uma das jóias da Espanha e também seu calcanhar de Aquiles. A região luta há anos por seu reconhecimento como nação e essa briga deixou pesadas marcas na sociedade espanhola, através das ações terroristas do ETA. Durante a ditadura de Franco, o povo Vasco foi proibido de utilizar o idioma euskera e essa imposição do estado espanhol deixou no povo uma certa indisposição a tudo que remete a, ou simboliza a Espanha. Em Bilbao, o Rafa passeava com a camisa da seleção espanhola e, ao voltarmos para o hotel, passamos por um rapaz que não hesitou em demonstrar seu apreço pelos símbolos do estado espanhol, soltando um sonoro: ¡Véte a la mierda! Mas, apesar dessa névoa de tensão que encobre a região, o País Vasco é um local maravilhoso, parada obrigatória nos roteiros de viagem pela Europa. Uma região de cultura totalmente diferente de qualquer outra existente no Espanha. * País Vasco em euskera.